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o meu ano após o fim dos tratamentos… O que mudou na minha vida…

Se existe alguma informação sobre os tratamentos oncológicos, sei que não existe tanto sobre o depois. 

Assim, recebo várias questões sobre como estou agora, daí a fazer este artigo, onde abordarei as perguntas mais questionadas e o que considero mais pertinente.

Efeitos dos tratamentos oncológicos

* Cansaço

Vou começar pelo ponto mais sentido por mim, mas também por várias pessoas com que falo. 

Quer durante a quimioterapia, mas também outros doentes oncológicos em que realizaram radioterapia, o cansaço foi dos efeitos mais sentidos.

De facto, se no final da quimioterapia senti algumas melhoras, durante e depois a radioterapia senti imenso cansaço e fadiga. Tendo este efeito permanecido ainda alguns meses após o fim da radioterapia

Assim, não fui sentido melhoras significativas. Antes pelo contrário, fui sentindo, após o fim dos tratamentos, um acumular do cansaço.

O que foi mais difícil de lidar, pois não é um assunto tão abordado e, por tal, nem sempre esperado pelos doentes oncológicos.

o que fazer?

Eu sei que me preparei para enfrentar a doença. Mas considero agora não estar preparada para a recuperação da doença.

Neste sentido, procurei ajuda e tomei medidas na minha vida que tiveram um grande impacto na minha recuperação praticamente após 9 meses do fim dos tratamentos.

Sinceramente, julgo que necessitamos mesmo de algum tempo, ou seja, alguns meses de recuperação após o cancro.

Todavia, posso mencionar que considero que o que teve mais impacto na minha recuperação foi a prática de exercício físico

# o meu caminho de recuperação 

Menciono que quer durante, mas especialmente depois do fim dos tratamentos, tentei ter uma prática física constante – passeios com as minhas cadelas; realização de tarefas domésticas; caminhadas…

Mas, a realização de exercício físico como musculação e natação tiveram um impacto gigantesco no meu nível de energia.

* alteração do peito 

Durante muito tempo a mama operada esteve bastante inchada, o que levou a que tivesse que procurar soutien’s para esta necessidade. 

# soutien’s para seios diferentes 

Todavia, passado um ano já utilizo soutien sem preenchimento na mama não operada.

Dado a diferença ser cada vez menos notória. 

Todavia, continuo a utilizar soutien sem copas, isto porque esta zona, incluindo a axila, continua a ser algo mais sensível.

O que leva a que quando posso, ando sem soutien.  

esvaziamento axilar

Algumas vezes estou mesmo super bem, outras ando com dores que, geralmente, prolongam-se por alguns dias.

Mas quase sempre as dores estão associadas a algo que não devia ter feito:

  • pegar em algum peso (exemplo uma saca com compras, não muito pesada)
  • dormir sobre este lado
  • ter o braço por baixo de algo (almofada, cadelas dormirem por cima deste braço…)

Quando as dores surgem tento entender o que levou a esta situação, de modo a tentar evitar. 

não se culpe

Porém, aqui há que tentar não nos culparmos, pois a culpa não leva a nenhum lado positivo.

Por exemplo, adormecia com muita facilidade para o lado esquerdo. É claro que foram anos e anos deste hábito, e por tal, o meu corpo de vez em quando retoma a esta posição. 

o que fazer?

Tento focar-me nos exercícios de recuperação

Em que tento realizar todos os tipos mas com especial incidência naqueles que me provocam uma maior dor. 

Geralmente, passado dois ou três dias começo a sentir algumas melhoras. Mas que a dor acabou por desparecer apenas passado uma semana. 

Todavia, se em alguma situação não sentir de todo melhoras sei que deverei entrar em contacto com a equipa médica

as dores são sempre iguais?

No meu caso não, assim como das pessoas com que mais falo sobre este tema.

As dores tendem a surgir mais na axila, e ao lado da mama.

Mas já tive uma ou outra ocasião em que só tinha dor no antebraço e caso tocasse. Dando uma sensação algo como se tivesse uma nódoa negra, mas que visivelmente não existia qualquer alteração no braço

* memória

Mesmo passado um ano de recuperação, ainda sinto uma diferença bastante significativa quanto às minhas capacidades cognitivas

Especialmente relativamente à memória. Bem como a confusão no meu discurso (quero dizer porta mas digo janela; sei que é preto e quero dizer preto mas digo branco…). 

mas todas as capacidades cognitivas são afetadas?

Julgo que não. Isto porque, sei que este período foi o que ocorreu uma maior aprendizagem quer a nível da língua inglesa, mas também algumas operações como desenvolvimento de sites (eu não era desta área profissional). 

Isto é, estupidamente parece que as coisas que estava tão habituada foram apagadas da minha memória, mas aquilo que queria mesmo aprender, aprendi e ficou

o que fazer?

Ao abordar esta questão com oncologista foi-me recomendada a toma de ómega3. Mas que este o efeito só seria sentido apenas a partir do segundo ou terceiro mês de toma. Como ainda estou no primeiro mês ainda não sinto melhoras relevantes. 

* peso

Durante a quimioterapia fui perdendo algum peso. Tendo em cerca de 2/3meses perdido 7 quilos.

Já nos tratamentos seguintes, início de hormonoterapia, cirurgia, radioterapia fui mantendo o peso.

Tendo continuado com o mesmo peso durante este ano de recuperação, tendo apenas oscilações entre 2 a 3 quilos.

Apesar de terem ocorrido algumas alterações significativas como retoma da menstruação; término da toma do tamoxifeno; retirada do segundo dispositivo intra-uterino

* cabelo 

Passado cerca de um ano e meio após o fim da quimioterapia o cabelo está…. Pequeno! 

Esta é uma questão que julgava que pouco impacto teria na minha vida. Mas estava enganada.

Novamente, durante os tratamentos lidei com esta questão utilizando gorros.

Mas não contava que o crescimento do cabelo fosse tão demorado. [Ou tinha uma esperança ridícula que para ter o cabelo pelos ombros demoraria apenas um ano…]. 

Claro que as pessoas que nos acompanham vão-nos dizer que já temos o cabelo enorme. Mas raramente sentimos isso. 

o que fazer?

Antes de tudo ter paciência. Acho que estarmos preparadas para este caminho é desde logo positivo

Eu tinha uma ideia do crescimento do cabelo da minha mãe. Mas dado ela nos últimos anos ter o cabelo pequeno, pareceu que o crescimento ocorreu de modo mais rápido. É claro que não! 

De facto, o meu “problema” está em focar-me no objetivo final que é ter o cabelo pelo menos, até aos ombros

Assim, e quando aceitei que tal não ia ocorrer tão brevemente, decidi procurar alternativas que passaram pela utilização de penteados mais radicais

Como a minha cabeleireira e amiga me indicava: ou deixava crescer e ia ter que passar por uma fase estúpida. Ou ia adequando alguns penteados, o que pressuponha ir cortando o cabelo. 

Fotos crescimento cabelo

Neste sentido considero ser bastante importante irmos registando o crescimento do nosso cabelo.

Isto porque, quando vemos as primeiras fotos ai entendemos que já tivemos mesmo cabelo pequeno. 

# fotos crescimento cabelo (12 meses após o fim da quimioterapia)

Fonte: Unsplash

vida muda mesmo depois do cancro?

Sim e não.

Sim, porque é um acontecimento tão intenso e tão longo na nossa vida que claro poderá ter um impacto na nossa vida.

Não, porque apesar de ter passado por momentos [menopausa, depressão] que não reconheci a pessoa que estava no meu corpo; aos poucos fui-me encontrando.

Assim, e como qualquer outro acontecimento marcante na vida de uma pessoa, vamos aprendendo, vamos alterando, mas também vamos reforçando a nossa essência

Claro que desejava que fossem outros acontecimentos que tivessem alterado a minha vida, tal como a maternidade ou a mudança de país.

Mas se foi este acontecimento que tive que passar na minha vida, tento agora aprender o que quero reter

 

aceitação

De facto, não é algo que tivesse sido fácil para mim.

Aceitei o facto de descobrir cancro da mama, grau 3, aos 29 anos.

Mas não estava a conseguir aceitar os impactos negativos que este estava a ter na minha vida, principalmente:

  • hipótese de infertilidade;
  • condução a problemas financeiros, dado não ter usufruído de subsidio de doença;
  • o tempo de tratamentos e alguma recuperação não ser um tempo bem aceite pelo mercado de trabalho, isto é, uma maior dificuldade neste regresso
  • facto de ter vivenciado menopausa, em que, especialmente após a radioterapia e com a toma de tamoxifeno tornei-me numa pessoa que não gostava de ter conhecido. 

Ou seja, fui entendendo que de facto tinha motivos para não estar bem. Mas ter motivos e não fazer nada não me ia levar a um bom porto

Assim, a constatação anterior ajudou-me a ter energia para procurar alternativas e ir tentando resolver a minha vida.

minha recuperação

Acredito que a recuperação ocorre de modo diferente para cada pessoa. 

Mas comigo funcionou uma bateria de medidas (exercício físico, trabalho pessoal psicológico, medicação). 

E, passado este ano de recuperação, sei que tenho muito a fazer.

Mas talvez o que considere mais importante é o facto de sentir que vou ser capaz (possivelmente não como desejaria, mas como for possível). 

mas então o que mudou?

* alimentação | equilíbrio

A minha alimentação alterou bastante e, talvez não do modo esperado. 

Durante a quimioterapia fui tendo vários cuidados na alimentação que julgo terem sido importantes. 

Mas ter passado por esta experiência não me conduziu a que optasse apenas por uma dieta

Antes pelo contrário, está a ser o período que procuro conhecer novos sabores, diferentes culturas gastronômicas. Bem como, reforçar nas comidas que me fazem feliz. 

Assim, procuro uma dieta considerada saudável, mas tendo algumas exceções que acredito fazerem bem à minha alma e vida. Por tal, considero agora fazer uma alimentação muito mais pensada e variada

* exercício físico | harmonia

Nunca fui adepta de desporto, considerando que sempre tive uma boa prática física até pelas deslocações, caminhadas ou tarefas que iam desenvolvendo.

Porém, agora sinto mesmo necessidade de carregar energias através do exercício físico, tendo preferência por passadeira, bicicleta ou natação. 

Assim como a prática de ioga, que só descobri durante os tratamentos oncológicos e que foram bastante importantes para a obtenção de alguma energia. 

Todavia, respeito os sinais do meu corpo. Se em algum momento não me estiver a sentir bem, paro. 

* o que quero da vida | análise 

São poucas as pessoas com que falo que mencionam que não analisam a sua vida com o decorrer desta situação de saúde.

Primeiramente, há uma “necessidade” de se entender o que levou a isto. [O que é impossível…]

Considero que esta análise pode ser muito positiva, como muito negativa.

Se apenas for feita uma análise para nos culparmos ou culpar algo, penso não ser nada proveitosa. Sendo até mesmo um desperdício de energia. 

Se por outro lado queremos entender o que poderia ter sido feito de modo diferente, pode ser uma análise positiva

Mas claro que este trabalho psicológico pode ser duro e mesmo doloroso

Daí a considerar ser feito apenas quando nos sentirmos preparadas para tal. 

escrita

Podendo a escrita ser essencial neste processo. Para mim foi. 

Isto porque, começava a pensar num assunto e ficava a ruminar pensamentos

Enquanto que ao escrever ocorria uma maior fluidez de pensamentos e conexões

E, depois, tem a enorme vantagem de recordar as coisas que uma vez pensamos e julgamos importantes

e medo do cancro?

Já deixaste de ter medo? Sinceramente? Não.

Durante o cancro tive momentos de muito medo, mas também outros momentos em que estava em paz (exemplo, preparação para a cirurgia oncológica). 

E agora não é muito diferente.

alturas em que vou fazer os exames super descansada, sabendo que está tudo bem.

Mas também já tive uma ou outra altura em que simplesmente me estava a passar pois tudo indicava que teria novamente cancro [o que, felizmente, veio-se revelar negativo].

E estes pensamentos surgiram por uma excessiva atenção da minha parte, com alguns erros administrativos ou também nem sempre a melhor abordagem por parte dos técnicos de saúde

conclusão | ano de recuperação

  • tal como o diagnostico de cancro da mama e o respetivo ano de tratamentos tiveram repercussões na minha vida, julgo que o ano seguinte teve também um forte impacto 
  • assim, aqui abordo algumas questões que me são colocadas do depois do cancro, tais como o que sinto na mama, ou se já me sinto menos cansada
  • mas também quis abordar outros tópicos que considero pertinentes a serem abordados como dificuldades neste ano ou ainda os desafios que o cancro traz à nossa vida
  • e com isto comecei a pensar num assunto que gostava de explorar que é o cancro e a sua influência nos relacionamentos
  • e vocês que questões têm? ou as maiores dificuldades sentidas?
Posted in cancro, cancro da mama, viver depois do cancro

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