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como falar com pessoas com cancro? [o meu cancro não é pior que o teu]

Por vezes sentimos que esta luta contra o cancro é mesmo algo muito solitário.

Isto porque, as emoções vividas são tão avassaladoras que não conseguimos expressar por palavras. 

O que significa que quem já passou ou está a passar por um cancro possa não perceber exactamente o que vai na cabeça de uma outra pessoa que passou ou está a passar por este acontecimento na vida

Cancro mulher jovem

Ouvi tantas mas tantas vezes que eu até “tive sorte” por ter o cancro tão nova

Porque desta forma o meu corpo reagiria muito bem aos tratamentos

De facto, reagi muito bem aos tratamentos, especialmente quimioterapia e recuperação da cirurgia à mama e ao esvaziamento axilar. Mas acredito que tal poderá ter sido por ser nova, mas também por toda  a aprendizagem por mim feita e por todos os cuidados tidos

Sorte ter um cancro?

  • Eu tive sorte por ter tido um cancro tão nova e com as células multiplicam-se mais rapidamente, o crescimento do tumor maligno também estava a decorrer de um modo mais rápido?
  • Sorte por ter a menopausa aos 30 anos? E os efeitos sentidos serem mais agressivos e violentos comparativamente a uma menopausa normal aos 50?
  • Eu tive sorte em ter o cancro tão nova, para desde logo saber lidar com a influência das hormonas na líbido? Ou com as alterações de humor provocadas pela menopausa. Tudo pontos para nutrir um relacionamento amoroso?
  • Eu tive sorte de ter que esvaziar a axila esquerda aos 30 anos e com isto ter que adaptar toda a minha vida? E o quanto vou ter que me adaptar caso mais tarde consiga abraçar o desafio da maternidade? (relembrar que o braço operado não pode realizar esforços ou de outra forma podemos ter complicações como o linfedema) 
  • Tive sorte de ter isto aos 30, no momento que me sentia pronta para ser mãe. Em que tive que trancar este projeto na gaveta, apenas não sei se mais tarde saberei onde está essa chave?
  • De ter aparecido numa altura da minha vida que estava desempregada, sem direito a subsidio de doença. E que tive que aprender a viver com 200 e poucos euros por mês [prestação social de inclusão]?
  • Ou ainda como isto influenciará (acredito que não positivamente) a minha carreira profissional? Como é que uma nova entidade patronal vai entender as minhas constantes idas ao hospital?
  • E as meninas que estão a enfrentar o cancro e tem bebés ou crianças. Também é sorte?
  • Ou as suas avós?
  • Ou pessoas com extremas dificuldades financeiras que o subsidio de doença não lhes permite colocar baixa. Por exemplo, o subsidio de doença de empregadas domésticas, que pode rondar os 200 e poucos euros. 
  • Ou os trabalhadores independentes que só gozam de 1 ano de subsidio de doença. Quando, na maioria dos casos, os tratamentos demoram esse tempo.

Minimizar o cancro

Mas por favor não minimizem cada situação de cancro. Afinal de contas é uma doença tramada e é. 

Se analisarmos com atenção vamos ver que cada caso teve muitas dificuldades e muitas sortes

O que dizer a alguém com cancro?

Primeiramente não comece logo com “que sorte que teve“, pois a “unica” sorte que alguém com cancro pode ter é a oportunidade de lutar contra esta doença.

Ao mencionar “que sorte” parece que está a desvalorizar a situação da outra pessoa e nós não conhecemos a história toda….

O que pode parecer sorte, pode não ser assim tão cor de rosa

Cirurgia conservadora da mama

Alguém pode até ter sorte por não ter sido necessário tirar a mama. Mas não sabemos como ficou a mama dessa pessoa.

Cada vez há um maior cuidado com a questão estética, mas fica sempre uma outra mama, que não a que conheciamos.

Acredito que mesmo assim, a maioria das mulheres que são submetidas a uma mastectomia, escolheria ainda assim ficar com essa outra mama. Em vez de ter que passar por toda a fase de recuperação da mastectomia. E o impacto na vida perante a remoção de uma parte do nosso corpo.

Mas olha-se para a mulher com cirurgia conservadora e julga-se que ficou sem qualquer dor. Ou sem qualquer problema estético. O que não é verdade.

Artigo: Soutiens para depois do cancro da mama  

Esvaziamento axilar

Assim como não diga “que sorte que teve por não ter feito esvaziamento axilar“. Novamente a culpa não é dessa pessoa

Pode até não ter feito esvaziamento axilar, mas pode ter ficado com várias sequelas no seu peito.

Cancro grau 3

Ou ainda, quase uma discussão no hospital por uma senhora estar a atravessar por um cancro de grau 1, ou seja, estava no local e por tal realizou cirurgia e 15 sessões de radioterapia. Mas essa senhora estar bastante triste.

E uma outra bastante chateada porque tinha um cancro do grau 3, e só disse à primeira “ah, então no meu caso o que é que fazia?!” Desculpe?

Então cada um não pode lidar com a sua doença como necessita?

Se formos por esta via, então as pessoas com cancro grau 4 também podem pedir às pessoas com cancro grau 3 para não estarem chateadas ou aborrecidas com a sua vida

Temos que compreender que o cancro é uma grande pedra no sapato. E que as pessoas necessitam do seu espaço e compaixão para a sua recuperação

Cancro triplo negativo

Ou ainda, mencionarem “que sorte tens tu por não teres o cancro triplo negativo como eu“.

O cancro triplo negativo, infelizmente, ainda não tem uma terapia direcionada como a Hormonoterapia ou imunoterapia para os restantes tipos de cancros.

Porém não devemos esquecer que essas terapias tem também efeitos secundários e implicações na vida das pessoas.

Para quem está a fazer hormonoterapia, pode ter que lidar com sintomas de menopausa (afrontamentos, alterações de humor, estados de depressão…) por vários meses ou anos (geralmente 5 anos). 

Devemos ou não ter compaixão com as pessoas?

Com este post pretendo refletir e promover que cada pessoa reflita um pouco sobre esta questão.

Isto porque, durante o meu cancro foram várias as vezes que senti uma necessidade urgente de exprimir tanta coisa que tinha cá dentro na minha alma

E acredito que muitas destas afirmações surjam deste facto.

Isto é, as pessoas até querem ter empatia para com a outra pessoa. Mas não se consegue dissociar da sua história.

E com isto pode magoar os outros. E quem fica a ganhar? Ninguém! A pessoa magoada vai com isto continuar magoada e, possivelmente ainda vai magoar a outra pessoa.

E se sentimos tanto esta necessidade de falar, de desabafar, porque é que não fazemos do modo positivo ou construtivo para as partes

Falar sobre cancro
Fonte: Pixabay

Falarmos da solução e não dos problemas

“Ah, fez cirurgia conservadora e esvaziamento? Eu fiz mastectomia e esvaziamento. O esvaziamento é tramado, não é? Conhece os exercícios de reabilitação? Sinceramente acho que foi um enorme apoio para ter recuperado a mobilidade no braço”. 

Há uma lista enorme de pontos a abordar entre duas pessoas que estão a vivenciar isto nas suas vidas. Nomeadamente: 

  • dicas para lidar com a quimio (ginger ale para enjoos)
  • melhor pomada para as cicatrizes? (cicalfate?)
  • utilizou gel aloe vera na radioterapia?
  • os melhores soutiens para seios desiguais?
  • apoios sociais da segurança social e o necessário atestado médico de incapacidade?
  • alimentação?
  • exercício físico?
  • que atividades faz? ou livros que lê?
  • o que fez de difente na vida desde o cancro?

E assim, com esta atitude, quase de certeza que vamos aprender algo com cada pessoa. E essa pessoa vai aprender connosco.

E claro que ao falar abordará o seu caso, mas lembre-se que essa pessoa também está a passar por cancro. E, por tal, está num momento dificil da sua vida

conclusão | o meu cancro não é pior que o teu

  • a meu ver, substituimos o “que sorte que teve” por um ponto em comum de ambas as partes é bastante positivo
  • afinal de contas a culpa não é sua, nem da outra pessoa
  • no meu caso sim eu tive sorte de ter encontrado o cancro aos 29. numa altura que ainda tenho tantos projetos para concretizar. que acabou por ser a minha energia contra o cancro
  • procure conversas positivas quanto à sua situação, o cancro já é dificil o suficiente. 

Posted in cancro, cancro da mama, como posso ajudar pessoa com cancro, reflexões

2 Comments

  1. Cristina

    Obrigada por teres abordado esta situação.
    Tenho 31 anos e estava senti várias vezes uma pressão enorme por ser nova e toda a gente mencionar a “sorte que eu tenho”.
    Quando eu sinto tudo menos ter sorte por ter cancro.
    Mas ao mesmo tempo não devemos nos vitimizar. Faz-nos mal.
    Obrigada mesmo

    • maisumahistoria

      Olá Cristina,
      Ainda bem que gostaste deste post.
      É, o cancro é um assunto pesado, mas há formas de o tornar mais “leve”.
      Obrigada pelo comentário

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