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acabei a quimioterapia e agora? | porque é que não estou contente?

Então, nestes últimos dias estou a abordar o fim da quimioterapia com algumas pessoas e constatei que há situações comuns e que por tal deveria abordar estas num artigo.

Então cá vai…

Porque é que não estou contente?

Assim vou começar pela questão mais colocada… “Já acabei a quimioterapia, porque é que até estou triste?”

Há muita expetativa para o término deste tratamento oncológico

Mas depois termina e a nossa mente leva-nos imediatamente para a fase seguinte, que no meu caso, e no caso das meninas que estou a acompanhar é cirurgia oncológica.

Então vão surgindo mil e uma dúvidas. Sendo uma tão essencial como “quando serei operada”…

E em algo que deveria ser básico, na minha opinião, pois devia-nos ser dada uma janela temporal, mergulhamos numa escuridão….

E depois conhecemos casos que demoraram 3 semanas, outras 5, outras 8 (como foi o meu caso)…

E só esta incerteza é algo inquietante.

Mas há muitas outras situações a lidar. Mas que acredito que desabafadas, abordadas, ficam um pouco mais suportáveis, pois entendemos que não estamos sozinhas

O que queria que me tivessem dito?

1. desfrutar do término da quimioterapia

Dias a seguir à quimioterapia são absolutamente normais, em que temos os efeitos que já conhecemos e que de um certo modo, fomos aprendendo a lidar.

Mas depois, sem mais nem menos, eu senti uma energia muito poderosa no meu corpo

E este período coincidiu com a altura que teria um novo ciclo de quimioterapia, isto é, mais ou menos, passadas 3 semanas. 

Parecia que o meu corpo se tinha habituado a “levar uma coça” de 3 em 3 semanas. E tendo interrompido essa coça ele ficou super contente e energético. 

E acho que é muito bom aproveitarmos este período positivo na nossa vida. E, escrever…Para mais tarde ser-nos possível relembrar desta sensação tão boa

2. quando será a cirurgia? 

Cada pessoa encara o cancro de modo diferente. Só tem em comum que todos passamos por momentos muito escuros. Uns podem ser durante a quimioterapia, ou nos tratamentos seguintes.

No meu caso, lidei muito bem com o tempo da quimioterapia, pois foquei-me muito em mim.

[Inicialmente sentindo alguma culpa, mas depois entendendo que deveria mesmo tratar de mim para me ser possível tratar seja do que for…]

Acabei por “habituar-me” à quimioterapia. Sabia que faria cada sessão de 3 em 3 semanas [outras pessoas de 2 em 2 semanas, ou de semana a semana…]. E nesse intervalo preenchi o meu tempo com todas aquelas atividades que me faziam bem e, que, quando estava a trabalhar não me era possível.

Até tive um ou outro momento mais stressante pela quantidade de exames. Mas em termos gerais, existe uma noção do nosso tempo e como serão os dias seguintes

Termina a quimioterapia e voltamos a não saber como será a nossa próxima semana, nem a seguinte e, por aí fora… E isto é dificil de lidar…

Quanto a este ponto, gostava de resalvar que somos chamadas com alguma antecedência. Tinha mesmo receio que ligassem a mencionar que seria no dia seguinte ou algo tão próximo.

Mas não. Pensando bem, é muito dificil sermos chamadas para a cirurgia por um tempo inferior aquele que estavam a decorrer as sessões de quimioterapia.

Isto porque, para a cirurgia necessitamos de ter os valores aceitaveis de imunidade. Sendo dado assim algum tempo de recuperação.

3. Gerir expetativas

Pela minha experiência, e pelas conversas com as meninas deste blog, todas criamos expetativas impossíveis de concretizar

* quantidade de exames

Algo comum é o facto de constatarmos  uma nova bateria de exames antes da operação.

Ter exames para servirem de comparação com os anteriores, mas também como referência para o procedimento cirúrgico

Dito isto parece algo lógico e expetavel. Mas não é…

Até porque durante a quimioterapia vamos fazendo vários exames. Alguns deles mesmo nas últimas semanas e ficamos com uma ideia de que “ok, pelo menos este já fica feito…”.

Mas afinal vamos ter que fazer novamente alguns exames… E rapidamente a nossa mente viaja para o cansaço e todas as chatices que um exame acarreta…E depois não é só um exame. Mas a bateria de exames…

Então, novamente a nossa vida volta a girar à volta do cancro. E é isto que é dificil de lidar. 

Lidar com as chamadas telefónicas para fazermos o exame amanhã ou depois de amanhã (quando até tinhamos a reunião x ou o compromisso y).

E um exame tem-se que ir em jejum. Aquele tem-se que comer bem para não desmaiar. Depois o exame é marcado para as 12h mas pela nossa experiência anterior podem atrasar imenso e então já temos que preparar alguém que vá buscar os miúdos à escola…Ou ligam-nos e já temos um outro exame em horário próximo…Ou tinhamos um jantar de aniversário e depois ligam-nos para fazer uma ressonância às 21h…

Abordo esta questão porque há momentos em que julgamos que o universo está a conspirar contra nós. E isso faz-nos perder energia vital.

* esvaziamento axilar

No meu caso, dado a quimioterapia ter corrido tão bem criei inconscientemente a possibilidade deste procedimento cirúrgico não ser necessário.

[Nunca ninguém me tinha dito que não teria que fazer esta cirurgia…]

Então, na consulta relacionada com a cirurgia, quando o médico abordou como se estava a pensar concretizar a cirurgia, na qual teria também esvaziamento axilar…”caiu-me” tudo… 

A partir dali não fiquei contente por ter recebido a notícia que, dado a quimioterapia ter controlado o crescimento do tumor, e dada a minha idade, em principio, não faria mastectomia mas cirurgia conservadora da mama…Na minha cabeça, só pensava no esvaziamento axilar.

E como o esvaziamento axilar tinha afetado a vida da minha mãe. E como é que eu, nem sequer tendo tido um filho, ia “perder” um braço….Sim, a primeira ideia que surgiu-me foi o facto de não me ser mais possível pegar um bebé com o braço esquerdo…

Mas quanto a isto posso dizer agora, passado um ano desta cirurgia que, de facto, não vou conseguir fazer determinados esforços com o braço esquerdo. Mas que estou bastante contente como estou atualmente. E que acredito que tal deve-se às massagens e exercícios de recuperação, na devida altura.

Vida muda depois da cirugia

E ficamos algo ansiosas neste período pois, pelo que nos vai ser dito ou por outros casos, começa-se a entender que depois da cirurgia muita coisa vai mudar.

E, novamente, voltamos a não saber como é que vai ser; como é que vamos conseguir lidar com a situação; como é que será do outro lado….

Digerir a informação

Enquanto na quimioterapia perdiamos por uns tempos algumas condições; mas nos dias seguintes poderiamos estar melhor. Depois da cirurgia tal não vai ocorrer…a recuperação será lenta e gradual

Quanto a este ponto volto a salientar que é importantissimo, a meu ver, planear as semanas seguintes à cirurgia.

Abordo este tema pois se não aceitei muito bem o facto de fazer esvaziamento axilar, queria fazer tudo o que me fosse possível para ficar com as mínimas sequelas.

E isso iria alterar muito a minha vida, nomeadamente tinha ter repouso absoluto neste braço no primeiro mês.

Mas o planeamento das semanas foi essencial para mim. Sabia mais ou menos com o que podia contar e como as coisas iam decorrer

  • não é possível conduzir; mas vamos ter que ir a consultas e à enfermeira, vamos de metro, alguém pode-nos levar?
  • não podemos mesmo fazer esforços…se assumimos a responsabilidade das tarefas da casa como serão feitas essas tarefas? quem as pode fazer?
  • e as refeições? sim, porque cozinhar implica pegar em tachos e convem ser as coisas mais simples com menor esforço; ou neste tempo temos alguém que nos faça a comida? ou a possibilidade de take-away?
  • se possível distribua a sua rede de ajuda. este período é complicado para nós, mas também para quem está ao nosso lado, então é importante não ser só uma pessoa a ter que suportar tudo…

Sei que não estamos a nadar em dinheiro, e as questões financeiras pesam nas nossas decisões, mas, pelo menos, neste período é essencial termos todo o cuidado connosco

Tempo de recuperação = tédio?

Então se não podemos fazer tarefas, o que vamos fazer? Aqui também é importante pensar que livros que queremos ler; que séries assistir; o que vamos fazer para passar o tempo…

Não podemos conduzir. Mas no caso do Porto, o passe mensal de rede geral custa 40€. Porque não tirar e nos dias que tivermos pior e mais entediadas ir a algum sítio que gostemos? (Jardins públicos; cafés; lojas; cinemas; estar com família; estar com amigos…)

Tempo recurso valioso

Nestes tempos, mas também durante a quimioterapia quando tinha mesmo que descansar ou ficar por casa, ajudava-me a pensar que “daqui a nada” esta história toda do cancro já não seria tão relevante no meu quotidiano. E que ai de certeza ia novamente acumular coisas que queria fazer mas que não tinha tempo.

Com o cancro podemos ganhar algum tempo e se “desfrutarmos” deste tempo, até vamos construir momentos importantes na nossa vida.

Então tenho que estar contente?

Claro que não. Mas antes do cancro estavamos sempre contentes?

Se não, então ao atravessar um cancro que traz tantas implicações na nossa vida, nos nossos relacionamentos, até na nossa personalidade e identidade, como queremos andar sempre com um sorriso?

Não, o que quero passar com este artigo é que vamos ter dias maus e está tudo bem em ter esses dias maus,

Mas não se “habituar” a esses dias maus. É dificil sentir no momento como é que vamos conseguir lidar com tudo. Mas também já passou por várias sessões de quimioterapia e teve dias maus e dias menos maus

Coisas que fiz antes da cirurgia de esvaziamento axilar

E por tudo o que descrevi anteriormente há determinadas coisas que considero pertinentes fazermos antes da cirurgia:

  • pegar ao colo todas as crianças que temos na nossa vida e desfrutar destes momentos;
  • pegar ao colo as nossas criaturas, tenho duas cadelas e uma delas é mesmo uma menina de colinho, então teve muito colo [atualmente continua a ter mas só com o braço direito]
  • fazermos o exercício físico que mais desfrutamos, eu combinei com amigas e foi o tempo que fiz mais atividades de pilates e ioga; mas pode subscrever a um mês num ginásio e fazer tudo o que nos apetecer [nadar é para muita gente um estado de meditação]
  • o mesmo se aplica a muito amor com o nosso parceiro ou parceira, porque não?
  • algo que agora a escrever até me soa a uma estupidez, mas que me soube bem foi o de ter feito uma limpeza geral à casa; de um certo modo ajudou-me a limpar a minha mente e a eliminar algumas preocupações [se ninguém me conseguir ajudar não será assim um problema tão grande…]
  • uma ideia minha e do meu namorado foi fazer uma sessão fotográfica do corpo; não para um dia olhar e perder-me na comparação, mas algo para me lembrar que mesmo antes do cancro tinha defeitos, as mamas não são exatamente iguais…tinha estrias…o mamilo era isto ou aquilo…mas nisto tudo gostamos do nosso corpo [inicialmente detestei a minha nova mama, mas agora já a assumo como uma parte importante do meu corpo]

conclusão | fim da quimioterapia

  • termina-se a quimioterapia e apenas queremos recuperar desta coça que levamos por meses;
  • mas começamos a entender que rapidamente vamos lidar com uma outra etapa e tal como no inicio da quimioterapia, a nossa vida volta a ser gerida em torno do cancro e não temos uma ideia de como vamos lidar com todas as questões
  • porém, há que entender que desde o fim da quimioterapia até à cirurgia podem decorrer algumas semanas e dado sermos avisadas com antecedência, podemos “aproveitar” este tempo de recuperação
  • agora é imposível levar com tanta informação e ficarmos felizes e contentes da vida, não. necessitamos de tempo para ir digerindo a informação
  • mas não se esqueça: terminou a quimioterapia; uma fase tão terrível ficou para trás. Superou a quimioterapia!  
Posted in cancro da mama, cirurgia, Quimioterapia, tratamentos

4 Comments

  1. Lúcia

    Olá, bom dia. Gosto muito do seu blog. Também passei por um esvaziamento ganglionar total e mastectomia radical. Já passou um ano e 9 meses e ainda hoje faço um plano de recuperação e já consigo nadar. Muita força e coragem. Tenho um pequeno blog recente mas o meu é para ajudar na parte emocional. Beijinhos.

    • maisumahistoria

      Olá Lúcia,
      Já dei uma vista de olhos no seu blog e PARABÉNS!
      Fico “contente” por saber que o assunto cancro é cada vez mais abordado. E como a questão emocional faz todo sentido…
      Um dia pretendo fazer uma lista de blogs importantes e claro que quero mencionar o seu.
      Obrigada pelo comentário,
      Lara

  2. Andreia

    Muito obrigada pelas tuas palavras certas nos momentos certos. Espetacular ❤️
    Beijinhos

    • maisumahistoria

      Oh Andreia e podia ser de outra forma com pessoas espectaculares como tu?!
      Força minha querida 😉

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