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perguntas e respostas sobre o depois do cancro

Agora que escrevo este artigo tenho ideia que esta fase, depois do cancro, pode ser deveras desafiante, pois não há uma abordagem dos desafios que temos que vivenciar.

Isto é, durante os tratamentos oncológicos há uma determinada compaixão e empatia para com este acontecimento. 

E depois do término destes começa a existir uma pressão para regressarmos à nossa “normalidade”.

Mas pedir tal é apenas impossível. Temos que nos adaptar e criar uma nova normalidade

Questões sobre o depois do cancro

1. Tens dores na mama?

A questão mais frequente é se tenho dores na mama.

Sim, tenho, nas duas mamas, mas especialmente na mama operada.

Assim como tenho mais dores em determinadas condições, nomeadamente:

  • no tempo frio;
  • dias anteriores ao período menstrual;
  • no dia seguinte a ter feito massagem terapêutica
  • se tiver uma quantidade significativa de cafeína no organismo

Mas são dores fortes?

Sim, são dores bastante fortes

De facto, primeiro que me acostumasse a estas dores foi algo desesperante.

Isto porque, temos uma dor na mama e ficamos logo alertas.

Porém, sendo seguida na oncologia, fazendo exames, vamos verificando que está tudo bem e vamos aceitando as dores.

Todavia, a minha médica oncologista nunca desvalorizou as minhas dores. E sempre indicou-me que se sentisse algo anormal para entrar em contacto com ela. 

Acontecendo o mesmo com as dores de esvaziamento axilar

Fonte: Unsplash

2. Quanto tempo de recuperação?

Quantas vezes pesquisei esta informação. É estúpido, mas dado o modo como a nossa mente é formatada necessitamos de ter uma noção de como será a vida no próximo mês. Ou no próximo ano.

Posso dizer agora que precisei de um ano após a cirurgia oncológica para começar a sentir a *lara* a aparecer

Mas tal deveu-se ao facto de eu estar a cavar um poço cada vez mais fundo e ter tomado um conjunto de medidas.

# Meses de recuperação | o que fiz

3. Pensas no cancro?

Sim, com muita frequência.

Tento não me lembrar de algumas situações, mas se por algum motivo estou a ter aquelas memórias, tendo a aceitar e tentar entender porque é que estou a relembrar-me de tal. 

Mas penso mais no cancro, do que aprendi. O que descobri sobre mim. Como me tornei esta pessoa agora. 

 

4. O cancro mudou-te?

Como qualquer experiência intensa na vida, penso que sim.

Quer de um modo positivo, em que reconheço o valor da minha vida e como tal não é um bem adquirido. E a sorte que tive.

Mas também por um lado muito negro, em que não conseguimos, não queremos voltar à realidade do dia a dia em que se perde tempo com coisas que não se devia perder tempo algum. E, com isto, ser uma pessoa que nem sempre me orgulho

5. O medo do cancro desaparece?

Durante os tratamentos senti um medo do cancro. 

Porém, nesta fase fui-me habituando, mas não significa que por vezes não tenha medo de várias coisas…

… um exame não correr tão bem…

…ter que passar por aquilo outra vez…

…não conseguir ser a pessoa que era antes do cancro…

E aqui acho que a aceitação, a compaixão para connosco pode ser útil. 

6. O cancro é positivo?

Não, de todo que não é. Tais como outros acontecimentos na nossa vida. 

Todavia, se vamos ter que lidar com este acontecimento e vamos, considero positivo tirarmos as considerações que pudermos e quisermos

E a nossa vida é como um livro e o depois do cancro pode ser visto como um novo capítulo por escrever

Acho que o dilema desta etapa é o de não sabermos bem quem somos. Podemos perder a nossa identidade, devido às sequelas físicas e cognitivas, mas sinto em simultâneo uma outra pessoa a nascer. 

E este processo é deveras complicado e complexo. 

7. Porque é que tratam o cancro como se de uma gripe se tratasse?

Bem, temos uma gripe, começamos a ficar melhores e esperamos um dia para não ter temperatura para voltar à nossa rotina.

Porém, o cancro não é uma gripe. Ficamos com sequelas. E penso que negar esse facto não vai contribuir para a nossa recuperação.

Não temos que voltar à nossa normalidade. Normalidade essa que até nos pode conduzir ao cancro… Mas sim ajustar a nossa normalidade, até podendo criar uma nova realidade.

8. Conseguiste descobrir porque tiveste cancro?

Nop!!!

Há os ditos fatores de risco. Mas analisando por esse prisma quase todas as pessoas teriam cancro.

Ou pior ainda ficamos com medo de viver pois tudo provoca cancro! Viver com este medo é aterrorizador. Recordo-me do período de quimioterapia, em que pela baixa abrupta de defesas pensava em tudo antes de tomar uma mínima decisão. E tal foi deveras desgastante. 

Assim, a questão do porquê ter tido cancro dever ser muito bem analisada

É claro que é normal ter este tipo de pensamentos. “Será que foi isto…” ou “foi aquilo…”. Neste sentido, tentei analisar a minha vida quando estava em condições para tal. 

Por exemplo, estar num dia super mal da quimioterapia, e sem energia nenhuma, não é de todo um bom dia para qualquer análise

E só vale a pena fazer este tipo de análise (em que perdemos imenso energia) se conseguimos tirar alguma consideração relevante ou positiva… algo que queremos mesmo fazer (meu caso foi aprender mais receitas vegetarianas, entender relacionamentos tóxicos que tinha…)

De qualquer das formas, eu acredito que a pessoa com cancro tem um papel importante na sua cura (mas não na perspetiva de vencedores ou vencidos…pois esta luta é muito injusta…mas que podemos ou não aceitar os tratamentos, começarmos a confiar na nossa sabedoria interior…)

No entanto, tenho que admitir que não questionei porque a mim. Mas questionei porque agora que estava a sentir-me preparada para ser mãe

9. Porque o cancro mexe tanto com a nossa vida e com a nossa mente?

Então, apesar de alguns tipos de cancro, como o da mama e da próstata serem vistos agora como gripes prolongadas, não o são.

O cancro pode matar.

É verdade que vamos na rua e tudo pode acontecer. Mas daí a que antes de atravessar uma rua olhamos para os lados.

Assim, quem vivencia uma experiência de cancro sentiu na pele como o nosso corpo pode “deixar de ser nosso” e com isso ter a sensação “de pouco ou nenhum controlo da vida”

Deste modo, e dado o cancro ser tão avassalador é “normal” que queiramos fazer mudanças na nossa vida. Agora, como tudo, há que ser à procura de um equilíbrio.

Mas com o cancro a nossa bússola pode ficar estragada e torna-se bastante complicado. 

Grande trabalho psicológico

Daí a considerar que o trabalho psicológico deveria ser essencial em qualquer luta contra o cancro.

De modo a obtermos ferramentas que nos ajudem a lidar e a ultrapassar os desafios que nos são colocados

E, mais do que tudo, sentirmos algum controlo na nossa vida.

Um dos  período mais negro foi quando 

10. Conseguiste regressar à rotina profissional?

Não e muito simplesmente acredito que não vou conseguir tão cedo.

Uma coisa seria regressar a um contexto profissional (que também tem os seus desafios, que conheço pelo caso da minha mãe).

Mas iniciando uma nova atividade profissional, indicando nas entrevistas que por uma questão de saúde vou ao hospital com alguma regularidade, este ponto não tem sido bem visto para contratos dependentes.

Trabalho independente

Mas e porque há que pagar as imensas despesas mensais, estou a arriscar numa carreira independente.

Creio que, de momento, é a opção que me permite conciliar trabalho com a flexibilidade horária que ainda necessito

Mas também sobre este ponto já tenho alguns pontos que quero escrever como: medidas de apoio à criação de emprego; situação de trabalho independente com prestação social para a inclusão…

Desempenho profissional

E também porque ainda sinto que necessito de mais tempo para realizar algo que já tenho experiência devido à afetação nas minhas capacidades cognitivas

Isto quer pela troca de palavras associadas (digo porta quando quero mencionar janela); quer pelo esquecimento de algo que fiz há minutos…

11. Estou em tratamentos, porque é que achas que depois do cancro foi a pior fase para ti?

Porque foi. 

Mas antes de dar uma explicação, se está em tratamentos concentre-se nessa fase, quer seja quimioterapia, radioterapia ou cirurgia

Inicialmente, sofremos por antecipação, mas entendemos com a nossa história de cancro, que se pensarmos que vai correr de determinado modo, ele arranjará uma forma para nos mandar ao chão.

Assim, preocupe-se com a sua situação agora. Porque os desafios vão acabar por aparecer e vão. 

Depois do cancro

Mas avançando para esta etapa… | desafios do fim do cancro:

  • há uma exigência para que de um dia para o outro paremos de falar no cancro, quando na semana seguinte vamos continuar a ir ao hospital por esta razão… 
  • acompanhamento hospitalar que detestamos mas que depois ficamos ansiosas pois estamos com uma dor na mama e temos o peito inchado e já temos minhoquinhas na cabeça
  • que as pessoas ao nosso redor, sem querer, não sabem se devem ou não falar sobre o cancro e, geralmente, falam sobre filhos ou carreira profissional; areas essas que o cancro abala muito
  • porque sentimos um cansaço insuportavel e ficamos com a ideia “espera, o pior não era a quimioterapia?!”
  • se inicialmente até podemos estar bem em casa porque temos muitas atividades que gostamos para fazer, passado um ano já podemos detestar as atividades que dantes nos davam prazer
  • porque somos outras pessoas, por exemplo quanto a paciência, em que o nosso nível começa a ser muito reduzido… então às vezes podemos ter um ataque de loucura apenas por uma questão burocrática que não conseguimos aceitar que nos esteja a roubar tempo… porque estamos focadas na nossa situação… que tem as suas características positivas e negativas… 

Aceitar a situação

Ou seja, razões para não estarmos bem são muitas. E se existir uma pressão para estarmos bem, em principio o resultado não será muito positivo.

E esta pressão não tem que ser externa.

Eu não tive pressão externa. A minha família apoiou-me para ter um período de recuperação.

Pressão interna

Mas eu cansada do cancro e de eu querer tirar este assunto cancro do meu dia a dia à força, só me conduziu a ter momentos de completa e estúpida irracionalidade

o pior do cancro tem que ser depois na recuperação? [pergunta minha]

Não, acredito que não.

Se o cancro de cada pessoa é diferente. Se um tratamento parecido despoleta efeitos diferentes em diferentes pessoas, não considero que esta fase tenha que ser a pior para todas as pessoas.

Apenas para mim foi. 

E como considero não existir muita abordagem, quis esplanar este assunto.

outros temas não tão abordados mas muito importantes:

Trabalho e competências profissionais | fertilidade | cancro como prevenir

Então, estas são as áreas que eu sei que quero analisar e mais tarde escrever sobre o depois do cancro da mama.

Capacidades cognitivas

Isto porque, são várias as mulheres que sentem as suas capacidades cognitivas afetadas após o cancro.

[Eu sinto ainda imenso, passado um ano]. E tal tem uma enorme implicação no nosso dia a dia, bem como na vida profissional

Fertilidade

Para mulheres jovens, o cancro da mama é um osso duro de roer até devido à fertilidade.

O que é que o futuro me reserva quanto a este aspecto?

Cancro como prevenir

Assim como, também quero abordar situações em como prevenir este acontecimento na vida. 

Daí a querer pesquisar e escrever sobre esta temática.

conclusão | perguntas sobre recuperação após o cancro

  • para mim, o período seguinte à radioterapia, acompanhado com hormonoterapia, mas também em que as minhas hormonas estavam simplesmente descontroladas, foi muito dificil
  • mas acho que se aceitarmos este período como uma fase, algo que vamos encontrar desafios e por tal devidas respostas e medidas, vamos sentindo uma esperança
  • e é isso que quero transmitir com este artigo – esperança – algo tão importante em qualquer processo de cura
  • daí a só conseguir abordar mais estes assuntos quando já tinha algo positivo para partilhar…o meu caminho de recuperação
  • como foi no vosso caso? 
Posted in cancro, cancro da mama, gestão emocional

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