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o meu caminho recuperação após cancro | como me sinto | o que me ajudou?

Algumas das meninas que acompanham este blog encontram-se ainda em tratamentos oncológicos.

Sendo necessário uma grande força e energia vital para encarar e lidar com este período.

Todavia, acredito que conhecermos casos de mudança, de que agora estão bem, é importante, daí a querer fazer este artigo. 

Contudo, o caminho é longo. Sendo, a meu ver, até mais pertinente abordar o caminho e como este foi feio

Antes do cancro

Se pensar bem, antes de saber que tinha cancro não andava bem há uns tempos. Um extremo cansaço. Mas já algo tão recorrente que o aceitei como “normal”.

De facto, e dado o agitar das nossas vidas, todas as pessoas andam cansadas. Não sendo um sintoma assim tão estranho e por isso muitas vezes desvalorizado. 

Mas, até agora, não conheci uma história de cancro da mama que não abordasse este assunto do cansaço. 

Dureza dos tratamentos oncológicos 

Fala-se na luta contra o cancro da mama, porque de facto é mesmo uma batalha.

Primeiramente, é um tipo de cancro que, de qualquer dos modos vai interferir a nível hormonal

Mas porque, os tratamentos, especialmente para cancro da mama mais avançados como grau 3 ou grau 4 são mesmo muito duros para o nosso corpo.

Neste sentido, até pode fazer tudo direitinho, ter a melhor alimentação durante os tratamentos, ter os maiores cuidados. Mas que vai ter efeitos da quimioterapia ou da radioterapia, vai.

Não está sozinha…

Esta luta não é um sprint, mas sim uma maratona. 

Então, inicialmente podemos encarar este desafio de frente e fazer tudo direitinho. Mas isso não significa que não vai ter efeitos secundários dos tratamentos oncológicos, porque vai. 

Abordo esta questão pois são muitas as meninas que enviam emails com “Lara estou a tomar ginger ale, mas mesmo assim estou super enjoada, também te aconteceu? Sim, aconteceu. Na primeira sessão desse ciclo, que não conhecia essa dica, disse mal da minha vida. Já nas restantes sessões, ia controlando com essa dica.

Assim, acredito na partilha de dicas para lidar os desafios do cancro, seja durante a quimioterapia, radioterapia, menopausa, infertilidade, questões financeiras

Mas que o cancro vai virar com a nossa vida e com o nosso quotidiano, vai. E, depois, cada pessoa tem os seus efeitos.

Efeitos diferentes dos tratamentos 

Dou o exemplo da toma do Nivestim, em que eu poucas vezes mencionei pois para mim tal só implicava não esquecer desta toma, após 24 horas da quimioterapia, e ter cuidado para não dar no local onde estava a ser a ser administrado, mensalmente, o zoladex

Já para outras meninas esta toma foi bastante penosa, pois interferia com dores nos ossos e articulações. 

Efeito mais sentido = cansaço

Mas que todas sentimos a falta completa de energia durante os tratamentos. Não é sempre. Isto é, não são todos dias maus. O maior problema, a meu ver, é a incerteza

Um dia até nos sentimos bem. Mas, rapidamente, sentimo-nos mesmo sem qualquer energia, e só queremos e pudemos descansar… E lá está, a vida continua para além do cancro. Mesmo estando de baixa médica, há tarefas a realizar; pode haver miúdos para estar; compromissos com as nossas pessoas…Logo, é preciso estar muita atenta ao nosso corpo, e escutá-lo muito bem. 

Assim como, temos que ter em consideração toda a dinâmica associada à luta contra o cancro

  • muitas deslocações a ambientes hospitalares
  • exames prolongados e alguns radioativos
  • receio do que podemos ouvir por parte da equipa médica
  • resposta do tumor aos tratamentos
  • exigências, necessidades ou cuidados para tratamentos ou exames…

[Só de escrever e de me relembrar já estou cansada…]

Mas e depois dos tratamentos?

Este período não é tão abordado pelas pessoas.

Então, eu senti, como todas as meninas com que falei sobre este assunto uma pressão imensa para voltar à normalidade.

Porém, o nosso corpo necessita ainda de algum tempo de recuperação. Mas, principalmente, a nossa mente, pode vir a ser um grande obstáculo. 

Trabalho psicológico

De facto, quer durante, quer depois dos tratamentos oncológicos deveríamos ter um acompanhamento psicológico mínimo. O que não acontece.

Só se o doente oncológico pedir, ou o seu médico considerar necessário.

Porém, muitas vezes, na altura que mais necessitamos é mesmo a altura que recusamos qualquer tipo de ajuda

Como abordei num outro artigo, a Liga Portuguesa Contra o Cancro tem este apoio profissional. Todavia, nem sempre nos identificamos com o profissional. E sem esta condição, o trabalho psicológico não será efetuado. 

Abaixo partilho, o que me levou mesmo a pedir ajuda psicológica. 

Queremos normalidade?

Mas antes, e para não perder a lógica, o voltar à “normalidade” pode mesmo não ser querido pelo nosso corpo, por nós. Até porque podemos associar essa “normalidade” ao que nos conduziu ao cancro.

[Sei que esta questão poderá ser discutida profundamente. Mas, eu não perguntei “porquê a mim?” mas em determinadas alturas quis “entender” o que poderia ter levado a este acontecimento. Afinal até era uma miúda que tinha alguns cuidados na sua vida; que era nova; que andava controlada de modo preventivo, por opção própria…]

Depois do cancro pode encontrar pessoas que indicam que “não querem, mas que sabem hoje que conseguem ultrapassar um cancro”; mas nenhuma pessoa pede novamente este acontecimento na sua vida

Daí a vermos as pessoas durante e depois do cancro realizarem tantas mudanças na sua vida.

Porém, nem todas as mudanças são positivas

Era “porreiro” o cancro passar por nós e depois para nos livrarmos desta doença termos tratamentos que nos conduziam a que num futuro próximo todas as nossas decisões fossem as melhores e as mais acertadas.

Errado!

O cancro mexe muito connosco. Quer mesmo a quem se julga forte a nível psicológico. 

E, novamente, repito, existe uma ideia de que depois do cancro tudo virá cor de rosa para as pessoas que tiveram ou tem cancro

O que vamos vendo são pessoas que com o cancro fizeram um trabalho psicológico tão grande neste período que conseguiram tomar decisões que, possivelmente, não tomariam caso não tivessem este acontecimento

Mas isso acontece com o cancro como qualquer outro acontecimento na nossa vida. Não é pelo cancro em si. 

O cancro obriga-nos mesmo a analisar, nem que seja ao de leve (as pessoas que conheço não foi de todo leve) a sua vida. 

Eu não analisei suavemente a minha vida… Antes pelo contrário. 

E olhando para trás, sinto que muitas decisões que queria tomar não eram as melhores para mim, nem naquele momento, nem no futuro. 

Cancro = nossa pior versão? 

Para mim foi.

Fala-se em cancro e pensa-se logo em alguém que se encontra careca. Mas o visual mais estranho, é mesmo quando perdemos as pestanas e sobrancelhas. (Foram muitas as meninas que falaram no óleo de ricínio para evitar ou diminuir esta queda).  

Mas o pior é que associado a esta “nova” aparência há também uma nova pessoa.

Uma pessoa que até está extremamente cansada; que não estava preparada para a brutalidade dos tratamentos; que pode ter que lidar com uma menopausa em simultâneo; que o cancro pode trazer-lhe ainda mais desgostos como dificuldades financeiras ou fim de relacionamentos…Assim, o cancro realmente muda-nos.

Acho que a maioria das pessoas passa mesmo por uma fase em que anda triste, sem orientação, sem acreditar num futuro melhor.

E, depois, há blogs [como este] ou casos da vizinha, ou que deu num programa em que abordam que aquela pessoa teve cancro e agora faz isto, ou que mudou de emprego e agora é super feliz…

E são poucas as vezes que se admite que para chegar aquele ponto teve que se fazer um caminho tão duro, difícil e mesmo feio

Momentos de uma incompleta e estúpida irracionalidade 

Este blog tem como propósito a partilha de dicas úteis para a nossa vida.
 
Mas ao mesmo tempo partilhar coisas que as pessoas que passam por cancro identificam. No sentido de entenderem que não estão sozinhas.
 
Que, infelizmente, o estado que estão a viver foi mais ou menos vivenciado por outras pessoas. 
 
Então no outro dia uma menina indicou-me que o meu blog transmitia-lhe uma paz que ela não conseguia ter durante o cancro.
 
E se isto era um elogio ao meu trabalho, ao mesmo tempo senti-me mal, pois poderia não estar a mostrar a imagem completa.
 
Daí a sentir necessidade de abordar sobre os momentos mais estúpidos que tive durante o cancro.

Eu nem sabia como deveria chamar a estes momentos vivenciados por mim. 

Mas são momentos que vivenciei de pura irracionalidade, com muita estupidez à mistura.

E que momentos foram esses?

Momentos que tenho mesmo vergonha de os ter protagonizado

Momentos que atirei da boca para fora espadas bem afiadas às pessoas que mais amo

Fiz coisas que não quero esquecer, pois poderei correr o risco de as repetir, o que não quero. Mas que quando relembro não sinto boas sensações.

Menopausa 

Ok, posso compreender agora que foi mesmo muito para lidar. Perguntaram-me recentemente o que considerei mais complicado entre quimioterapia e menopausa. E, foi sem dúvida, menopausa

E há uma razão para a menopausa decorrer por anos. 

Nesta situação, somos colocadas em menopausa de uma semana para a outra…E o nosso corpo simplesmente não sabe como reagir. 

E, depois, se “comecei a lidar” bem com a menopausa porque contava que este período só se ia manter durante a quimioterapia (só faltam 5 meses….só faltam 3…só mais 1 mês e acabou…). 

Quando soube que entraria novamente em menopausa, através da hormonoterapia, tive mais um baque gigantesco neste caminho.

E, novamente, o meu corpo não soube lidar com isto. Eu não lidei. Pensava que tinha aceite. Mas não. 

Mesmo a nível hormonal algo de muito intenso ocorreu. Prova disso foi o facto de ter tido período menstrual intenso mesmo tomando o tamoxifeno, e ser algo de tão anormal, que levou ao deslocamento do DIU, por duas vezes. 

# Porque parei com a hormonoterapia? 

 Quem é esta pessoa?

Isto para dizer que não foi um ou outro momento mal, que estava no meu canto a chorar. 

Não, primeiro não chorava. Raramente chorei. E não chorava pois não sentia mesmo necessidade de tal. 

Mas, depois, tinha comportamentos que não tinham a ver com a minha personalidade e identidade

De facto, o meu namorado foi a pessoa que conheceu o monstro que eu não sabia que existia dentro de mim

E, novamente, acredito que podemos mesmo estar mal, a necessitar de ajuda, e mesmo assim não a procurar.

Isto porque, consideramos de que de nada adianta, que nenhum psicólogo ou psiquiatra nos vai entender. Que ninguém, mesmo quem vivenciou cancro com situações semelhantes nos vai entender porque o que está mesmo mal é um outro ponto na nossa vida, que na vida dessa pessoa está bem…

O que me fez procurar apoio psicológico? 

Na altura em que compreendi que esse monstro estava cada vez mais presente, e que estava a conduzir ao desgaste do meu relacionamento com o meu namorado, foi o motor para a minha procura por ajuda psicológica particular.

Anteriormente já tinha ido a algumas consultas de psico-oncologia, gratuitas, na Liga Portuguesa Contra o Cancro. 

Porém, estas consultas terminavam [fui a três] e não senti aquele baque que queria ter sentido. Ouvido aquela frase que mexia comigo de tal forma que me pusesse a considerar a minha perspetiva. Que recebesse recomendação de um artigo ou livro que alterasse a minha noção das coisas…

Porque eu só sabia que não estava bem. Sabia que até podiam ter “razões”; que era muita coisa para lidar; sabia isso. 

Queria dicas práticas para me ajudar a lidar com esta tempestade. Daí a minha necessidade em procurar blogs, outras experiências de cancro. Saber como deram a volta por cima…

Assim, e como já abordei sobre um outro assunto (implantação de DIU), é positivo identificarmo-nos com o profissional. Confiar. 

Então, para abordar este monstro, tinha mesmo que me sentir confortável, o que não consegui nessas consultas de psico-oncologia. Daí a ter procurado este apoio em modo particular.

E foi mesmo o melhor que fiz. 

Mas na altura não foi uma decisão tomada de ânimo leve.

Foi mesmo visto por mim como uma loucura, isto porque, sabia que tal implicaria algum tempo de apoio, o que leva a um gasto considerável. Isto na altura que estou a viver mais dificuldades financeiras

Ter tido apoio psicológico parecia quase um luxo. Mas tentei encarar como um investimento para o meu bem estar e, assim, para a minha saúde. Para a minha vida. 

Bom apoio psicológico

De facto, tive uma primeira consulta em que senti-me ouvida. Senti-me compreendida.

E recebi da outra parte questões deveras interessantes, o que me ajudou a pensar e que conduziu a ligações de pensamentos muito relevantes.

Sai desta consulta não com a ideia que estou mesmo mal porque estou a viver um cancro e um pouco mais. 

Mas sim que estava a atravessar por um período algo desafiante, que exigia muito de mim, e que por tal teria que ter compaixão para comigo, mas também, muita exigência.

Fonte: Unsplash

Saber controlar e gerir as minhas emoções. Algo que parece tão básico, não é? Pois é, eu não soube sempre lidar com as minhas emoções; então nesta altura tinha perdido todo o controlo.

Mas tinha mesmo perdido este controlo? Ou apenas não estava atenta aos sinais que me levavam a determinada situação ou emoção

Com este apoio consegui entender estes despoletadores irracionais. E quando os sentia aprendi e consegui lidar com os mesmos de modo racional. 

Ferramentas psicológicas

Tendo sido também mais que pertinente a aprendizagem de ferramentas, como respiração em determinados momentos.

Imagem completa

Isto é, de um modo consegui ver a imagem da minha situação.

E tal permitiu-me ser possível fazer algo. Ter controlo sobre a minha vida.

Sem ter essa perceção, fui compreendendo como assumia que perdia o controlo total e que sem dar por isso estava uma outra pessoa que não reconhecia e que não queria. O que era terrível de vivenciar. 

Inicio da recuperação

Assim, este apoio, esta mudança de perspetiva, associado com ferramentas úteis, foi o inicio da minha recuperação após cancro. 

Infelizmente e, novamente, devido a questões monetárias não consegui manter este apoio

Mas algo que considero ter sido bastante relevante foi à medida que ia aprendendo ou lidando com novas questões ia escrevendo para se mais tarde entendesse padrões semelhantes na minha vida pudesse experimentar determinadas técnicas.

Escrita

E foi aqui que comecei a descobrir a escrita. 

Inicialmente comecei a escrever das dicas que queria explorar sobre o cancro, até para discutir com a equipa médica. 

Ou entender o que poderia fazer para ajudar na eficácia dos tratamentos.

Até que as coisas correram minimamente bem durante a quimioterapia e a minha rede de apoio julgou que deveria partilhar e abordar assuntos que partilhava com essas pessoas. Daí a ter surgido a ideia deste blog

Até que comecei a utilizar a escrita como modo de sossegar a minha mente.

Tal como a maioria das pessoas, temos um problema e as resoluções podem ser tantas e de modos tão diferentes que até ficamos paralisados pela análise cuidada de cada situação. E, depois, na vida, nada corre como planeado [por vezes, ainda bem].

Então durante o apoio psicologico comecei a escrever sobre o abordado em cada consulta. E a minha posterior consideração. E com isto fui percebendo como a minha mente até se acalmava com esta técnica. 

Até que comecei a escrever cada vez mais. E cada vez melhor. E hoje em dia é mesmo algo essencial no meu dia a dia. 

Tenho uma ideia, um receio, uma aflição, escrevo…E ao escrever a minha mente deixa de estar focada naquele aspeto e já salta para um outro aspecto, por vezes, até numa possível solução. 

Leveza da mente 

Mas não é uma escrita organizada. Antes pelo contrário. É uma escrita dispersa, por vezes confusa, mas sinto que ao escrever aquele ponto deixa de ter tanto peso na minha mente

Menopausa sintomas

Confirmo o referido por muitas pessoas quanto à hormonoterapia.

Os sintomas físicos da menopausa vão aparecendo suavemente. Mas, depois parece que o corpo se vai habituando e ficam um pouco mais suportaveis, isto de mês para mês.

Mas confesso que tinha alguma expetativa quanto ao fim da menopausa

Estava à espera que de dia para dia os sintomas associados à menopausa fossem cada vez menos notórios. Mas ocorreu o contrário

Felizmente relembrei-me do meu poder para controlar as minhas emoções, o meu corpo, e com isso saber gerir todas estas questões.

Importância de um registo | o que se vive será um dia o que se viveu

Outro aspecto que reconheço também à escrita é a possibilidade de nos confrontar com o nosso eu passado.  “Ah, espera…eu já estive assim…”

Falando por mim, principalmente durante a radioterapia foi uma grande alento para mim ler como me senti nos dias seguintes à operação com esvaziamento axilar. Em como nesses dias perdi a mobilidade do meu braço e como tal foi assustador

Mas como é que foi o percurso, em que fui recuperando a mobilidade com os exercícios de reabilitação

Pode não gostar mesmo de escrever, podendo optar por um registo visual. Para mim foi muito positivo ver as as fotos do crescimento do meu cabelo. (Tenho o cabelo pequeno, mas já o tive muito mais pequeno, até está a crescer bem). 

Depressão

Mas apesar de todo o meu trabalho psicológico, e de sentir que aos poucos ia recuperando, ao mesmo tempo, fui sentindo uma apatia pela vida cada vez maior.

Até que me apercebi que estava a lidar com uma depressão

Durante os tratamentos senti muito cansaço; alguma tristeza; mas também encontrei muitos momentos de paz interior e de tranquilidade.

O que não estava a conseguir sentir nesta altura, e foi aqui que decidi recorrer a ajuda psquiatra, como expliquei num outro post sobre depressão e anti depressivos

Antidepressivos não são solução

Porém, não procurei esta ajuda com a ideia que seria a solução dos problemas da minha vida. 

Mas sim, que EU tinha problemas a resolver, questões a trabalharm principalmente a nível profissional, e que não os conseguiria resolver ou lidar com eles com as condições em que estava.

Assim, recorri a esta ajuda para obter condições para a minha vida. Tendo tido sucesso.

Isto é, com a ajuda dos ansioliticos comecei a dormir bastante melhor (depois do “fim da menopausa” voltei a acordar às 4h da manhã e não conseguir adormecer, nem no dia seguinte conseguir descansar…

Durante a quimioterapia acordava todas as noites mas no dia seguinte adormecia e recuperava um pouco as energias Nesta altura não era assim. Quanto mais cansada me sentia, mais difícil tornava-se adormecer ou, pelo menos, descansar. E esta situação mexeu completamente com a vida.

E o antidepressivo, em que não se sente a sua ação rapidamente, fui sentindo que coisas que me provocavam comichão mental deixaram de dar tanta comichão.

E com isto não ficava tão paralisada, agia mais, fazia mais, o que ajudava a ver as coisas a mudarem na vida. 

Como lidar com depressão

E porque quis mesmo enfrentar a depressão, mas porque há muitos sintomas depois dos tratamentos, nomeadamente cansaço, fiz praticamente um cocktail de recuperação.

Exercicio físico

Assim, em simultâneo inscrevi-me num ginásio com piscina; em que o exercício físico teve uma grande influência no meu quotidiano.

O que agora não me parece nada de anormal, na altura pareceu-me uma medida tão contraditória. 

Então se não tenho energia nenhuma como é que vou conseguir ir para um ginásio fazer seja o que for?

  • Porque vai-se um dia e até nos começamos a sentir melhor. E só queriamos andar 10 minutos, mas até fomos aos 15. E depois até fomos para um outro aparelho.
  • Porque depois até sentimos uma energia no nosso corpo como não sentiamos há algum tempo.
  • Ou porque depois do banho sentimos uma tranquilidade mesmo necessária na nossa vida. 
  • E porque no dia seguinte não sabemos bem o que, mas algo está diferente, melhor; então já começamos a pensar que na próxima vez que vamos ao ginásio. 

E, novamente, até para nos motivarmos podemos ir apontando pontos. Setembro fiz isto e aquilo. Outubro já fiz mais isto e aquilo. 

Conhecer-se

Depois o cancro abala a nossa vida. Assim, tal como num tufão, de seguida temos que limpar o que ficou para trás e começar a construir algo novo.

E esta construção é muito nossa. 

Este trabalho exige muito de nós, por isso é necessário um equilibrio, afinal o mundo não se fez em dois dias. Assim como ter compaixão para as condições que está a vivenciar. 

  • vamos continuar a ir muitas vezes ao hospital (claro que com menos regularidade)
  • vamos ter alguma ansiedade nos exames e nas consultas
  • as sequelas do cancro fazem parte do nosso corpo, como esvaziamento axilar ou mesmo a perda da memória e concentração após a quimioterapia

Conhecer outros casos de cancro

Agora olho para o cancro e reconheço a necessidade de equilibrio em tudo.

Quanto a este ponto é importante conhecermos outros casos para tentar alguma medida no que estamos a viver…(ginger ale para enjoos?; chá de gengibre para as dores nas articulações?; aloe vera na radioterapia?; ir para a sessão de radioterapia sem qualquer vestigio da pomada?)…

E até para não cairmos na falsa ideia de que estamos sozinhas… O cancro é algo muito solitário, muito sozinho, mas o que estamos a viver é o que várias pessoas vivem quer ao passar por cancro, quer a atravessar por tantos outros acontecimentos trágicos na vida

Mas ao saber de um caso de cancro temos que nos afastar desse caso e não comparar com o nosso.

Há uma tendência, o que é normal, mas pelo menos entender quando estamos a salientar os nossos pontos negativos e reforçar os pontos positivos das outras pessoas, dos outros casos

E se nos é dificil ver a imagem completa da nossa situação, é impossivel conhecer a situação completa da vida de uma outra pessoa

O que entendo por recuperação do cancro?

Sentir a energia da Lara e não apenas a energia antes do cancro.

Sentir-me mais saudavel, isto porque depois dos tratamentos senti muita coisa menos estar mais saudavel. Se bem que agora ando muito mais vezes constipada, dado não andar com todos os cuidados que tive durante os tratamentos. 

Sentir-me mais disposta a enfrentar a vida.

Desafios da vida depois do cancro

Penso ser importante desmistificar esta ideia dourada do depois do cancro.

Isto porque, depois do cancro os desafios na vida serão, na maioria dos casos, superiores:

quer a nível profissional

quer tenha emprego, quer tenha que procurar um novo emprego, nem sempre há uma ideia real do que é o depois do cancro e o que isso implica em faltas ao trabalho | mas se estas questões forem discutidas e debatidas chegamos certamente a algum lado

muito a nível financeiro

felizmente o cancro não é pago pelo utente, mas há um conjunto de despesas que mexe muita na nossa vida; começando pelo facto de pudermos não ter o nosso rendimento; mas também despesas com medicamentos, despesas de deslocações, despesas necessárias para evitar sequelas na nossa situação | mas há despesas que tem mesmo que ser consideradas como investimentos na nossa vida

a nível de relacionamentos

durante o cancro vamos perdendo várias relações, seja pelo receio da pessoa em não suportar a palavra cancro na sua vida; quer seja pelas mudanças que queremos na nossa vida não corresponderem com as expetativas das outras pessoas | mas aqui acabamos por sentir que as coisas acontecem por uma razão

a nível pessoal

o que se revela algo tão perturbador inicialmente como “será que devo fazer isto?” “será que tive cancro por aquilo? pode transformar-se em grandes aprendizagens, nomeadamente compaixão para connosco, hoje digo sinceramente que eu sou a minha melhor companhia e a minha melhor amiga

a nível de competências

também é pouco ou nada abordado como as nossas capacidades mentais são afetadas, especialmente memória e concentração, o que tem consequências no nosso quotidiano | aprenda coisas que goste; faça sudoku; jogue jogos mentais; o nosso cerebro é um musculo que precisa de ser estimulado

Quando comecei a sentir melhorias?

Comecei a sentir alguma recuperação passado um ano da cirurgia oncológica. O que corresponde a 10 meses depois do fim da radioterapia.

Mas até lá foi mesmo muito difícil. 

Então estás com anti-depressivos e sentes-te recuperada do cancro? | aceitar o cancro 

Sim, pois sinto a minha energia. Sinto a minha vida e com capacidade de controlo na minha vida. 

conclusão | recuperação após cancro

  • atravessar o cancro é dificil; mas o caminho após o cancro também tem os seus desafios
  • daí necessitarmos de “dar tempo ao tempo”, mas penso ser pertinente, principalmente para quem descobriu o cancro ou está na fase de tratamentos, de que depois do cancro a vida continua, com desafios como até ao momento em que descobrimos ter cancro
  • porém posso dizer que não acho que tive uma solução, mas um cocktail de recuperação: o anti-depressivo, assim como o meu trabalho psicológico, como exercício físico, como trabalho mental, estão me a ajudar a lidar com o cancro
  • e depois há uma aceitação desta doença algo como condição que faz parte da minha vida. isto é, não é uma doença que acabam os tratamentos e não se pensa mais ou que só me lembro em Outubro
  • não, pensa-se e bastante. E nós temos que aprender a lidar com o cancro; como temos que aprender a lidar com diabetes ou com doenças auto-imunes…ou com tantos outros acontecimentos na nossa vida
  • por tal o cancro não é, nem deve ser a nossa vida
Posted in cancro, cancro da mama, condições, exercício físico, gestão emocional, menopausa | sexualidade | (in)fertilidade, reflexões, viver depois do cancro

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